A tecelagem é milenar; acompanha o ser humano desde os
primórdios da civilização. Está identificada com as próprias
necessidades do Homem, de agasalho, de proteção e de expressão.
São fibras de algodão, de lã, de linho, fiadas e
tingidas por processos manuais, que nos teares, através das mãos
do Artista, se unem em cores e formas.
A tecelagem utilitária evoluiu na tecnologia, e a de
expressão procurou os caminhos naturais. Aí as tramas e as
urdiduras se entrelaçam para dar forma ao pensamento e à intuição.
Saber tecer e tingir fios de fibras naturais são
conhecimentos que se mantém a séculos e acompanham a humanidade
desde sua origem. Por necessidade, a tecelagem firmou-se no Brasil
Colônia, onde produzir tecidos para escravos e gente simples
justificava o empreendimento. Houve tempo em que toda casa mineira
tinha uma roda de fiar e um tear tosco de madeira. Fazia-se o fio e
do tear saiam colchas e roupas para a família. Enquanto teciam, as
mulheres iam nomeando suas tramas de acordo com o desenho: Daminha,
Pilão, Escama, Dados, Sem Destino ou até mesmo com os os nomes das
artesãs que as criavam. Com as tramas nascia o pensamento abstrato
e é por isto que, até hoje, tecer significa pensar. Suas técnicas
consagradas pelo tempo não são restritivas, mas sim, abrem
infinitas possibilidades de resultados, desafiando a criação.
A
HISTÓRIA DO TEAR NO BRASIL
Para
falarmos da história do tear no Brasil, temos, necessariamente, que
falarmos da própria ocupação do solo brasileiro, possibilitado
pela penetração das capitanias e pelos ciclos de extração,
notadamente o do ouro nas Minas Gerais no século XVIII.
A
TECELAGEM EM MINAS GERAIS
Minas
Gerais foi a região brasileira que mais absorveu a arte de tecer
manualmente e desenvolveu características próprias, porém
conservou a tradição trazida pelos colonizadores portugueses. Tal
influência marcou de forma fundamental o povo dessa região e
formou uma cultura própria e peculiar: a do "caipira".
Através do Tear fêz-se possível a confecção de roupas tecidas
em algodão e lã, as quais serviam para a lida no campo e até
mesmo para os dias de festa. A atividade de tecer era inteiramente
rudimentar, começando pelo plantio do algodão cru e ganga, que,
depois de colhido, era descaroçado num descaroçador manual,
cardado e fiado. O tingimento dos fios se dava pela utilização de
cascas e raízes, dentre elas o Anil (azul), a Sandra d'água
(vermelho) e a Caparosa com pau-brasil (preto), entre outras.
Na
atualidade, a tecelagem enriquece a produção cultural do Brasil,
desenvolvendo linguagem própria e atuando com grande
expressividade; a tecelagem transcende a mera artesania e se insere
conceitualmente na manifestação da arte popular contemporânea.
Ela ainda mantêm seu caráter interativo com as linguagens artísticas,
sem abandonar a rica relação entre o saber fazer e o saber pensar.
Em
nossos dias, continuamos com as etapas na produção de nossos
tecidos, quais sejam: obtenção, fiação, tingimento, preparação
do urdume e tramagem e, finalmente, tecelagem.
CONCEITOS
BÁSICOS
Para
se explicar a tecelagem manual e o princípio de funcionamento de um
tear, é necessário o conhecimento dos seguinte conceitos básicos:
TEAR:
é uma ferramenta simples, que permite o entrelaçamento de uma
maneira ordenada de dois conjuntos de fios, denominados trama e
urdidura formando, como resultado, uma malha denominada tecido.
URDIDURA:
é formado por um conjunto de fios tensos, paralelos e colocados prèviamente
no sentido do comprimento do tear.
TRAMA:
é o segundo conjunto de fios, passados no sentido transversal com
auxílio de uma agulha, também denominada navete. A trama é
passada entre os fios da urdidura por uma abertura denominada cala.
CALA:
abertura entre os fios ímpares e pares da urdidura, por onde passa
a trama.
PENTE:
peça básica no tear pente-liço, que permite levantar e abaixar
alternadamente os fios da urdidura, para permitir a abertura da cala
e posterior passagem da trama.
PRINCÍPIO
DE FUNCIONAMENTO
A
urdidura é colocada através do pente e seus fios são mantidos com
uma tensão constante. O movimento vertical do pente faz surgir a
abertura denominada cala, por onde é passada a trama,
sucessivamente de um lado para outro, entrelaçando-se desta maneira
os dois conjuntos de fios.
(ver
figura)

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A figura mostra de maneira simples este processo:
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A-
URDIDURA
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B-
TRAMA
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C-
TECIDO
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D-
PENTE
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E-
CALA
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F-
NAVETE
COM A TRAMA
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Vários
são os tipos de teares existentes, cada um com uma finalidade específica.
A escolha do tear a ser utilizado depende da proposta de trabalho,
seja fazer um tapete, uma tapeçaria, uma peça de vestuário ou ainda
utilitários tais como bolsas, pochetes ou cintos.
Os teares mais conhecidos e suas utilidades são:
TEAR
DE FRANJAS: para a confecção de franjas para tapetes bordados,
arraiolo, por exemplo.
TEAR
VERTICAL: para tapeçarias de parede e gobelin.
TEAR
DE PREGOS: para trabalhos simples com crianças em Oficinas de Arte ou
na Educação Especial.
TEAR
DE FAIXAS: para a confeção de faixas e cintos.
TEAR
DE CARTÃO: para o mesmo emprego que o tear anterior.
TEAR
DE ALTO-LIÇO: para tapeçarias em geral.
TEAR
DE PAPELÃO: para brincar com crianças.
TEAR
PENTE-LIÇO: também denominado tear de mesa; usado para a confecção
de tapetes, faixas, tecidos para vestuário, bolsas e utilitários.
TEAR
DE PADRONAGEM: para o estudo de padronagem de tecidos. Funciona como o
tear de pedal, mas é menor e manual.
O
TEAR DE QUATRO QUADROS
O
tear de quatro quadros é o tear utilizado tradicionalmente no Brasil,
e assim como as padronagens, difere um pouco dos de outros países. Ao
se procurar entender melhor essas diferenças nota-se que há um
embasamento cultural e filosófico a justificá-las.
Outros
países, principalmente na Europa, procuraram aumentar a capacidade de
produção, o que serviu de semente para a revolução industrial e
distanciou cada vez mais o tecelão de seu tear.
No Brasil, ficou identificada a necessidade comunitária, a vida em
família, os sistemas de mutirão ou cooperativismo. Desta maneira,
nossos teares oferecem a eterna proximidade amorosa do tecelão e seu
instrumento de arte.
O
tear brasileiro, passado de geração a geração nos singelos códigos
de repassos, foi então uma valiosa herança. Guardadas em cestinhas,
aquelas tiras de papel com quatro linhas riscadas e tracinhos marcando
cada enfiação que nesse sistema equivale à pedalagem, permite a uma
pessoa, mesmo que não saiba ler, compreender e tecer as mais
intrincadas tramas, registradas em nossos padrões tradicionais.
A
arte em tear deu origem hoje em dia ao que se chama de Processo Tear-pêutico.
Isto vem da crença que toda forma de arte é considerada a essência
Divina manifesta no agir e o elo de ligação enre a matéria e o espírito.
O
PROCESSO TEAR-PÊUTICO
A
concentração em si, o desligar-se do externo e a busca incansável
de um estado centrado na harmonia, paz, quietude e luz podem ser também
alcançados através de um instrumento simples, de uso milenar, que
vem acompanhando o ser humano desde os primórdios de sua conscientização
como ser pensante e capaz de adaptar-se ao meio pelo uso de sua mente
e de suas mãos.
O
Tear, esta simples máquina, possibilita ao Homem o trançar de
diferentes materiais, em harmonia com a expressão individual de cada
ser e refletindo seu interior, quer em estado de calma, euforia ou
transformação.
A
mente, antena receptora e emissora em comunhão com as mãos é
refletida com o auxílio do Tear. Para os estados tranquilos, a
harmonia já existente é prolongada. Para os processos em transformação,
o Tear é um veículo acelerador dos mesmos, mantendo porém intactas
a harmonia e calma já conquistadas. A possibilidade de uma ordenação
e a saída da sombra para a luz na busca da centralização é o
efeito do Tear em estados mentais caóticos.
A
montagem dos fios no tear e a urdidura são nosso plano de trabalho na
terra e representam nosso destino; a trama, a escolha dos fios,
pontos, cores e formas, o tecer enfim, representam nosso livre arbítrio.
E finalmente, o entrelaçamento destes fatores inseparáveis
representa nossa caminhada no processo evolutivo de cada um de nós em
busca da Luz!
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